A Classificação de Risco do IWGDF (International Working Group on the Diabetic Foot) é o sistema padrão mundial utilizado para estratificar o risco de um paciente diabético desenvolver úlceras ou sofrer amputações. Ela divide os pacientes em quatro categorias (0, 1, 2 e 3), baseando-se na presença de neuropatia (perda de sensibilidade), doença arterial periférica (má circulação) e histórico de feridas anteriores. Cada grau de risco determina a frequência necessária de exames preventivos e o tipo de calçado ou intervenção exigida para proteger o membro.

No universo do diabetes, nem todos os pés são iguais. Enquanto um paciente recém-diagnosticado pode ter pés perfeitamente saudáveis, outro pode estar a um passo de uma lesão grave sem saber. O screening dos pés serve justamente para aplicar esta régua científica e dizer ao paciente: “este é o seu nível de perigo atual”.

O que é o sistema IWGDF?

O IWGDF é a autoridade máxima global em pé diabético. Eles estabeleceram que o risco não é aleatório; ele segue uma progressão lógica. Ao classificar um paciente, o médico deixa de trabalhar com suposições e passa a seguir um protocolo de segurança que comprovadamente reduz as taxas de hospitalização.

A classificação leva em conta três grandes vilões: a Neuropatia (perda de sensibilidade), a Doença Arterial Periférica (falta de sangue) e as Deformidades (pontos de pressão). Quando esses fatores se somam, o risco sobe exponencialmente.

Entendendo os Graus de Risco: De 0 a 3

Abaixo, detalhamos o que significa cada categoria e qual a conduta recomendada para cada uma delas:

Risco 0: O Pé de Baixo Risco

Este é o paciente que ainda preserva a sensibilidade protetora ao monofilamento de 10g e possui pulsos arteriais fortes e presentes. Não há deformidades ósseas significativas.

  • Conduta: Educação sobre o diabetes e incentivo ao autocuidado.
  • Exame: Deve ser repetido anualmente no screening preventivo.

Risco 1: O Pé com Neuropatia

Aqui, o paciente já perdeu a sensibilidade protetora. Ele pode pisar em algo e não sentir. No entanto, a circulação ainda é boa e não há deformidades.

  • Conduta: Inspeção diária rigorosa dos pés e escolha cuidadosa de calçados.
  • Exame: Repetir o rastreio a cada 6 meses.

Risco 2: O Pé com Neuropatia + (Vascular ou Deformidade)

Este é um estágio de alerta amarelo forte. Além da perda de sensibilidade, o paciente apresenta sinais de má circulação OU deformidades como dedos em garra e joanetes severos.

  • Conduta: Uso obrigatório de calçados terapêuticos e palmilhas de redistribuição de pressão.
  • Exame: Repetir o rastreio a cada 3 meses.

Risco 3: O Pé de Muito Alto Risco

Pacientes que já tiveram uma úlcera no passado, passaram por amputação ou sofrem de doença renal crônica avançada. O risco de uma nova ferida abrir é altíssimo.

  • Conduta: Vigilância profissional constante e calçados sob medida.
  • Exame: Avaliação profissional a cada 1 ou 2 meses.

Tabela Resumo: Sistema de Classificação IWGDF 2024-2026

Categoria Perfil Clínico Frequência de Screening
0 (Baixo) Sem Neuropatia e Sem Má Circulação Anual
1 (Moderado) Apenas Neuropatia (Perda de Sensibilidade) 6/6 meses
2 (Alto) Neuropatia + Doença Vascular ou Deformidade 3/3 meses
3 (Muito Alto) Histórico de Úlcera, Amputação ou Doença Renal 1 a 2 meses

Por que o Histórico de Úlcera coloca o paciente no Risco 3?

Muitos pacientes pensam: “Minha ferida fechou há dois anos, agora estou curado”. Na medicina do pé diabético, dizemos que a úlcera está em remissão, não curada. O tecido que cicatrizou é mais frágil que a pele original. Se os fatores que causaram a primeira ferida (pressão e falta de sensibilidade) continuarem lá, a pele abrirá novamente no mesmo lugar.

Por isso, quem já teve uma ferida entra na categoria de risco máximo vitalício. O cuidado deve ser redobrado para sempre.

O Impacto da Classificação na Escolha do Sapato

A classificação do IWGDF não serve apenas para preencher prontuários; ela dita o que o paciente coloca nos pés:

  • Risco 0 e 1: Podem usar calçados comerciais confortáveis, de bico largo e sem costuras internas.
  • Risco 2: Necessitam de calçados terapêuticos com profundidade extra para acomodar palmilhas customizadas que aliviam a pressão.
  • Risco 3: Frequentemente exigem calçados sob medida (orteses) fabricados após um escaneamento 3D do pé, para garantir que nenhum ponto sofra atrito.

A Importância da Equipe Especializada

Um clínico geral pode identificar um pé diabético, mas a estratificação precisa de risco exige ferramentas e tempo que muitas vezes só são encontrados em centros especializados. Identificar uma deformidade biomecânica sutil ou uma calcificação arterial oculta pode ser a diferença entre classificar alguém como Risco 1 ou Risco 2.

Na Clínica CIAD, a classificação é o primeiro passo de cada consulta. Saber em qual degrau da escada de risco o paciente se encontra permite que o plano de tratamento seja proporcional à ameaça.

Conclusão

Conhecer o seu grau de risco IWGDF é um direito de todo paciente diabético. É a bússola que orienta o autocuidado e as visitas ao médico. Se você tem diabetes e nunca foi “classificado”, você está caminhando no escuro.

Realize o seu screening preventivo, descubra a sua categoria e siga rigorosamente o calendário de visitas. A prevenção é o único caminho para manter os seus pés saudáveis e ativos por toda a vida.


Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Posso mudar de categoria de risco para melhor?

Infelizmente, é difícil. A neuropatia e a doença vascular costumam ser progressivas ou estáveis. No entanto, você pode evitar subir de categoria mantendo a glicose controlada. O único fator que é definitivo é o Risco 3: uma vez que houve úlcera ou amputação, o risco permanece 3 para sempre.

2. Ter calos me coloca em qual categoria?

Os calos são considerados deformidades ou sinais de alta pressão. Se você tem calos e neuropatia, você é classificado como Risco 2 (Alto Risco). O calo deve ser tratado por um profissional, nunca removido em casa.

3. O screening deve ser feito mesmo se o pé estiver “bonito”?

Sim. O Risco 1 (Neuropatia) é invisível a olho nu. O pé pode parecer perfeito, mas estar totalmente sem sensibilidade. Só o teste do monofilamento no screening revela a verdade.

4. Quem tem Doença Renal Crônica é sempre Risco 3?

Sim, as diretrizes mais recentes do IWGDF colocam pacientes em diálise ou com doença renal avançada no grupo de Risco 3 devido à alta fragilidade capilar e dificuldade de cicatrização inerentes à condição renal.

5. O plano de saúde aceita essa classificação?

Sim, o sistema IWGDF é a base técnica utilizada para justificar a necessidade de calçados especiais, palmilhas e frequências maiores de consultas preventivas perante as auditorias dos convênios.


Referências Bibliográficas

  • IWGDF (International Working Group on the Diabetic Foot). Guidelines on the classification of foot risk in people with diabetes, 2024.
  • SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes). Classificação de Risco e Estratégias Preventivas, 2025.
  • DIABETES CARE. Prediction of Diabetic Foot Ulcers: Validation of the IWGDF Risk Stratification System, 2023.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Prevention of diabetes-related amputations: Technical report, 2024.