
O exame biomecânico no screening do pé diabético é a avaliação da estrutura óssea, da mobilidade articular e da distribuição de carga durante a marcha (caminhada). O objetivo é identificar deformidades, como dedos em garra, joanetes e o colapso do arco plantar, que criam áreas de hiperpressão. Nesses pontos de pressão excessiva, o corpo reage formando calosidades (hiperqueratose). Para o paciente diabético com neuropatia, o calo atua como um “corpo estranho” que, sob pressão contínua, rompe os tecidos internos e causa uma úlcera por baixo da pele morta, processo conhecido como ulceração pré-calosa.
Muitas pessoas acreditam que os calos surgem apenas pelo uso de sapatos apertados. No entanto, no contexto do diabetes, eles são sinais biológicos de que a mecânica do pé está falhando. No screening dos pés, o exame biomecânico é a etapa onde olhamos para a “engenharia” do movimento para evitar que o pé se machuque sozinho.
A Anatomia do Risco: Deformidades Comuns
O diabetes pode causar uma condição chamada neuropatia motora. Ela enfraquece os pequenos músculos intrínsecos do pé, causando um desequilíbrio entre os tendões que esticam e os que dobram os dedos. O resultado são deformidades estruturais que mudam o mapa de pressão do pé:
1. Dedos em Garra ou em Martelo
Os dedos perdem a capacidade de ficar retos e “encolhem”. Isso expõe as articulações dos dedos ao atrito com o topo do sapato e aumenta a pressão nas “cabeças dos metatarsos” (a parte gordinha da planta do pé logo abaixo dos dedos).
2. Hálux Valgo (Joanete)
O desvio do dedão cria uma saliência óssea lateral. Além da dor (em pacientes com sensibilidade preservada), o joanete altera toda a fase de propulsão da caminhada, sobrecarregando o segundo e o terceiro dedos.
3. Pé de Charcot (Fase Crônica)
Esta é uma das complicações biomecânicas mais graves. Os ossos do pé sofrem microfraturas e desabam, transformando um pé com arco normal em um pé com “fundo de balanço” (convexo). Isso cria pontos de pressão em locais que nunca foram projetados para suportar peso.
O Ciclo Perigoso: Pressão -> Calo -> Úlcera
Diferente de um paciente sem diabetes, o paciente com neuropatia não sente o desconforto do calo. O processo de formação da ferida segue estes passos:
- Sobrecarga: Um ponto do pé recebe mais peso do que deveria devido a uma deformidade.
- Hiperqueratose: A pele engrossa para se proteger, formando o calo.
- Hemorragia Subcutânea: A pressão contínua do calo contra o osso rompe pequenos vasos por baixo da pele.
- Ulceração: O sangue acumulado e o tecido morto infeccionam, “derretendo” a pele de dentro para fora. Quando o calo cai, a úlcera já está profunda.
Como é feito o Exame Biomecânico no Screening?
Durante a avaliação na Clínica CIAD, o exame biomecânico foca em três aspectos fundamentais:
Avaliação da Mobilidade Articular
Testamos a amplitude de movimento, especialmente do tornozelo e da articulação do dedão (hálux). A “Glicação do Colágeno” (efeito do açúcar elevado) deixa os tendões rígidos. Se o tornozelo não dobra bem, o pé bate com mais força no chão a cada passo.
Inspeção de Pontos de Hiperpressão
Buscamos por vermelhidão (eritema) e calosidades. A localização do calo nos diz exatamente onde a mecânica está errada. Um calo na lateral do pé sugere um tipo de pisada; um calo na ponta do dedo sugere outro.
Análise da Marcha e Calçados
Observamos o paciente caminhar. Muitas vezes, o problema não está no pé, mas no sapato que “briga” com a estrutura do pé. Verificamos o desgaste do solado dos sapatos antigos do paciente, que funciona como um “rastreador” da pisada real.
Tabela: Tipos de Calosidades e Riscos Associados
| Localização do Calo | Causa Provável | Risco de Complicação |
|---|---|---|
| Planta do pé (Metatarsos) | Dedos em garra / Perda do coxim gorduroso | Úlcera plantar (Mal Perfurante Plantar) |
| Ponta dos Dedos | Dedos em martelo | Osteomielite (infecção no osso) da falange |
| Lateral do Dedinho | Sapato estreito / Deformidade de Taylor | Úlcera de pressão lateral |
| Calcanhar (Fissuras) | Anidrose (falta de suor) e sobrecarga | Fenda profunda com risco de erisipela |
A Importância das Palmilhas e Calçados Terapêuticos
Uma vez identificada a falha biomecânica, a solução raramente é cirúrgica no primeiro momento. O foco é a acomodação:
- Palmilhas Personalizadas: São feitas para “abraçar” o pé e distribuir o peso por toda a superfície, tirando a carga de cima do calo.
- Barra de Rolagem (Rocker Bottom): Sapatos com solado curvo que ajudam o pé a “rolar” durante o passo, diminuindo o esforço das articulações doentes.
- Profundidade Extra: Sapatos que acomodam deformidades sem causar atrito no topo dos dedos.
O Tratamento dos Calos: Nunca use “Calicidas”
Este é um alerta vital do Dr. Roberto Alves Lima: pacientes diabéticos jamais devem usar líquidos ou adesivos para remover calos vendidos em farmácias. Esses produtos são ácidos que queimam a pele. Como o diabético não sente a dor da queimadura, o ácido pode causar uma ferida química grave.
O desbridamento (limpeza) do calo deve ser feito apenas por profissionais capacitados, utilizando lâminas estéreis e técnicas que não lesionam o tecido saudável.
Conclusão
O exame biomecânico revela o que os olhos não veem à primeira vista: a dinâmica invisível que pode destruir a saúde do pé. Tratar calos e deformidades é tratar a causa raiz das úlceras. Se o seu pé apresenta calosidades frequentes, ele está a tentar enviar-lhe um aviso.
Não ignore os sinais. Um ajuste no calçado ou uma palmilha correta podem ser os fatores que impedirão uma complicação futura. O screening completo deve sempre olhar para como o seu pé se move.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Ter joanete aumenta o risco de amputação no diabetes?
Sim, indiretamente. O joanete cria um ponto de pressão lateral e muda a forma como o pé distribui o peso. Se houver neuropatia associada, uma úlcera pode surgir sobre o joanete devido ao atrito com o sapato.
2. Posso lixar os calos em casa?
O uso de lixas deve ser muito cauteloso e apenas sob orientação. O ideal é hidratar a pele com cremes específicos (com ureia) para diminuir a espessura do calo e procurar um especialista para o desbridamento seguro.
3. O que é o Mal Perfurante Plantar?
É o nome técnico da úlcera que surge na planta do pé, geralmente por baixo de um calo em um ponto de grande pressão. É uma ferida difícil de tratar porque o paciente continua a colocar peso sobre ela ao andar.
4. Sapatos ortopédicos são a mesma coisa que sapatos para diabéticos?
Nem sempre. O sapato para diabético precisa ser extra macio, sem costuras internas e com volume interno para não apertar deformidades. Sapatos ortopédicos genéricos podem ser rígidos demais.
5. As deformidades nos dedos podem ser corrigidas com cirurgia?
Sim, existem cirurgias para corrigir dedos em garra e joanetes, mas no diabético elas só são recomendadas se o risco biomecânico de úlcera for muito alto e se a circulação sanguínea estiver boa o suficiente para garantir a cicatrização da cirurgia.
Referências Bibliográficas
- IWGDF (International Working Group on the Diabetic Foot). Guidelines on the use of interventions to enhance the healing of chronic ulcers of the foot in diabetes, 2024.
- JOURNAL OF BIOMECHANICS. Plantar pressure distribution in patients with diabetic neuropathy and foot deformities, 2023.
- SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes). Abordagem Biomecânica e de Calçados no Pé Diabético, 2025.
- FOOT AND ANKLE INTERNATIONAL. Outcomes of surgical correction of deformities in the diabetic population, 2024.
- A Anatomia do Risco: Deformidades Comuns
- O Ciclo Perigoso: Pressão -> Calo -> Úlcera
- Como é feito o Exame Biomecânico no Screening?
- Tabela: Tipos de Calosidades e Riscos Associados
- A Importância das Palmilhas e Calçados Terapêuticos
- O Tratamento dos Calos: Nunca use “Calicidas”
- Conclusão
- Perguntas Frequentes (FAQ)
- Referências Bibliográficas
- A Anatomia do Risco: Deformidades Comuns
- O Ciclo Perigoso: Pressão -> Calo -> Úlcera
- Como é feito o Exame Biomecânico no Screening?
- Tabela: Tipos de Calosidades e Riscos Associados
- A Importância das Palmilhas e Calçados Terapêuticos
- O Tratamento dos Calos: Nunca use “Calicidas”
- Conclusão
- Perguntas Frequentes (FAQ)
- Referências Bibliográficas

